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Isto não é uma camiseta. É uma provocação impressa em algodão que te obriga a pensar toda vez que alguém pergunta o que você está usando.
Magritte sabia disso. Em 1929, quando pintou "A Traição das Imagens", ele colocou um cachimbo impecável no meio da tela e embaixo escreveu em francês: "Ceci n'est pas une pipe" (Isto não é um cachimbo). Parecia óbvio demais para ser verdadeiro claro que não é um cachimbo, é uma pintura de um cachimbo. Mas foi exatamente nesse óbvio que Magritte plantou a bomba filosófica. Ele não estava sendo chato ou literal. Estava desmantelando a crença de que uma imagem é a mesma coisa que a realidade. Que uma representação é a coisa em si. Que ver é crer. A obra se torna uma ferramenta de questionamento: o que separa a ideia do objeto? O signo da coisa? A arte da vida?
Essa desconstrução reverberou por todo o século XX. Tornou-se um meme antes dos memes existirem aquele tipo de ideia que viaja de café em café, de universidade em universidade, de discussão de bar em discussão de bar, porque toca em algo que já suspeitávamos mas não sabíamos como dizer. Marcel Duchamp fez algo parecido anos antes com um mictório assinado. Andy Warhol depois com suas latas de sopa. A arte conceitual inteira começou ali: na brecha entre o que você vê e o que a coisa realmente é. Na recusa de aceitar que a representação e a realidade são a mesma coisa. No privilégio do pensamento sobre a imagem.
E aqui estamos nós, em 2024, onde uma imagem não é nem a coisa nem exatamente uma imagem é um arquivo, um dado, um pixel com história. Magritte escreveu isso com tinta a óleo em uma realidade onde a fotografia era a ilusão máxima. Agora vivemos em um mundo onde a imagem é tão fluida, tão remixável, tão desconstruída que a frase dele ficou ainda mais verdadeira. Porque agora sabemos que nada é nunca o que parece ser. Que tudo é citação, referência, apropriação. Que a verdade é sempre mais complicada do que a imagem que a representa. Magritte foi um pós-moderno preso em um corpo moderno. Estava décadas à frente ou talvez sempre soubesse que a linguagem era o jogo verdadeiro, não a realidade.
A camiseta que você está lendo agora é feita de algodão peruano de fibra longa. Não é uma representação de algodão é algodão de verdade. Mas também é uma ideia sobre Magritte, sobre semiótica, sobre a diferença entre a coisa e o nome da coisa, sobre a brecha que Foucault explorou inteiro em um livro. O corte é unissex, caimento levemente solto, o tipo de peça que fica melhor quanto mais você a usa. O tecido amacia com as lavagens em vez de endurecer é o oposto de tudo que você aprende sobre roupas. Quanto mais você a desgasta, mais ela se torna ela mesma. E quanto mais você a usa, mais você carrega essa ideia de Magritte colada no seu corpo. Ela está em PP, P, M, G, GG e 3G. Cabe em todos porque a verdade de Magritte também cabe em todo lugar.
A Lacraste existe porque sabemos que roupas são superfícies, mas superfícies importam. Um cachimbo pintado em um tecido que você veste é sempre mais que um cachimbo. É um ato de comunicação. É você dizendo ao mundo: eu entendo essa brincadeira, eu reconheço essa referência, eu não estou só consumindo roupa estou carregando uma ideia. E ideias, diferente de cachimbos, são sempre exatamente o que parecem ser, mesmo quando fingem não ser.
A Lacraste não é uma loja de roupas. É uma galeria que decidiu ter carrinho de compras.
Cada estampa é uma ideia antes de ser uma peça. Cada peça é uma posição antes de ser uma roupa. Aqui, o tecido é o suporte o que você diz com ele é o produto real.
Nascemos na interseção entre arte, moda e cultura digital. Não fazemos moda de estação. Fazemos estampas que duram porque as referências que carregam já duram há décadas ou séculos. Colocamos Van Gogh ao lado de Inosuke. Mondrian ao lado de memes. Porque cultura não tem hierarquia. Tem relevância.
Pra quem entende a referência: bem-vindo. Pra quem vai pesquisar depois de ver a peça: ainda melhor.
Lacraste. Arte que você usa.
